El Niño Causa Terremotos? O Que a Ciência Diz Sobre essa Relação Controversa

Um "super El Niño" é esperado para o fim de 2026. Isso tem relação com os terremotos recentes? Entenda o que defende essa teoria controversa e o que diz o USGS sobre a atividade sísmica atual.

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Carlos Nascimento

8/28/20264 min ler

El Niño Causa Terremotos? O Que a Ciência Diz Sobre essa Relação Controversa

Tsunami evacuation route sign with waves
Tsunami evacuation route sign with waves

Nas últimas semanas, terremotos de grande magnitude atingiram a Colômbia e o Peru, ambos no chamado Círculo de Fogo do Pacífico. Como os dois tremores aconteceram bem no início de um novo episódio de El Niño — o fenômeno de aquecimento anormal das águas do Pacífico — uma pergunta antiga voltou a circular: existe alguma relação entre o El Niño e a atividade sísmica do planeta? A resposta curta é: a ciência ainda não tem certeza — e essa é uma das discussões mais controversas da geofísica moderna.

A teoria: teve início ainda na década de 1980

A hipótese não é nova. Nos anos 1980, o pesquisador Daniel A. Walker, do Hawaii Institute of Geophysics, analisou quase 24 anos de dados sísmicos ao longo da Cadeia Leste do Pacífico — uma extensa cordilheira submarina que vai do Golfo da Califórnia até a Ilha de Páscoa — e encontrou uma coincidência chamativa entre a energia liberada por terremotos naquela região e a recorrência de episódios de El Niño.

Décadas depois, outro estudo, conduzido por pesquisadores do próprio Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), levantou uma possibilidade ainda mais intrigante: grandes fluxos de lava no fundo do oceano poderiam gerar anomalias térmicas capazes de interferir no ciclo do El Niño — ou seja, a relação poderia até funcionar no caminho inverso, com a atividade vulcânica submarina influenciando o clima, e não o contrário.

O que os críticos dizem

A teoria está longe de ser consenso. Parte da comunidade científica argumenta que as variações no nível do oceano associadas ao El Niño resultam em mudanças de pressão insignificantes sobre o leito oceânico — pequenas demais para alterar a frequência de terremotos. Esses pesquisadores reforçam ainda que o papel dos ventos alísios já é reconhecido como o principal motor por trás do fenômeno El Niño, o que tornaria dispensável qualquer explicação ligada à atividade vulcânica submarina.

Também vale lembrar um fator geográfico importante: a maior parte dos grandes terremotos recentes — incluindo os da Colômbia e do Peru — ocorre justamente no Círculo de Fogo do Pacífico, uma das regiões sismicamente mais ativas do planeta, com ou sem El Niño. Ou seja, tremores fortes ali não são, por si só, uma anomalia.

Estamos tendo mais terremotos do que o normal?

Aqui está um dado que ajuda a colocar a percepção recente em perspectiva: segundo o catálogo sísmico global do USGS, não há evidência de que o número de grandes terremotos esteja aumentando de forma contínua ao longo do tempo. Em um ano típico, a expectativa é de cerca de 15 terremotos de magnitude 7,0 ou superior e 1 de magnitude 8,0 ou mais — cerca de 16 grandes terremotos por ano, em média. Esse número varia naturalmente: 2010 teve 23 eventos desse porte, enquanto 1989 teve apenas 6.

O aumento na quantidade de terremotos que chegam ao noticiário nos últimos anos está muito mais ligado à evolução das redes de monitoramento sísmico — hoje muito mais sensíveis e abrangentes — do que a uma mudança real na atividade da Terra.

E o "super El Niño" esperado para 2026-2027?

Modelos internacionais indicam probabilidade alta (acima de 90%, segundo alguns levantamentos) de que o El Niño se estabeleça até o verão de 2026/2027, com parte dos cientistas apontando para uma versão particularmente intensa do fenômeno. Isso deve trazer consequências bem documentadas e sem controvérsia — como secas, chuvas extremas, ondas de calor e mudanças nos padrões de furacões — mas a relação com terremotos continua sendo, cientificamente, uma hipótese em aberto, não um fato estabelecido.

Perguntas frequentes

Existe consenso científico de que o El Niño causa terremotos? Não. É uma hipótese defendida por alguns pesquisadores com base em coincidências estatísticas entre os dois fenômenos, mas outros cientistas contestam a relação, e não há consenso estabelecido até hoje.

Por que tantos terremotos fortes aconteceram no mesmo período do El Niño? Grande parte dos terremotos mais fortes do mundo ocorre no Círculo de Fogo do Pacífico, região sismicamente ativa independentemente do El Niño — o que torna difícil separar coincidência de causalidade.

O número de terremotos no mundo está aumentando? Segundo o USGS, não há evidência de aumento contínuo na frequência de grandes terremotos. O que mudou foi a capacidade de monitoramento, hoje muito mais sensível do que décadas atrás.

Quando o El Niño deve se estabelecer oficialmente? Modelos climáticos internacionais apontam alta probabilidade de o fenômeno se consolidar até o verão de 2026/2027, com risco de ser uma versão particularmente intensa.

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