Google Earth Revela Civilização Perdida de 5 Mil Anos Escondida no Deserto do Sudão
Arqueólogos usaram imagens de satélite do Google Earth para encontrar 260 estruturas de uma civilização nômade desconhecida no deserto do Sudão — e a descoberta pode reescrever a pré-história africana.
CIÊNCIA E TECNOLOGIARECENTES
Carlos Nascimento
9/8/2026
Google Earth Revela Civilização Perdida de 5 Mil Anos Escondida no Deserto do Sudão
Uma ferramenta que qualquer pessoa usa para ver mapas e ruas do mundo inteiro acabou de ajudar a reescrever um capítulo da pré-história africana. Usando imagens de satélite de plataformas como o Google Earth, uma equipe internacional de arqueólogos identificou 260 estruturas monumentais escondidas sob a areia do deserto de Atbai, no leste do Sudão — vestígios de uma civilização nômade que viveu na região há mais de 5 mil anos e que era, até agora, completamente desconhecida da ciência.
O achado: 260 estruturas em quase 1.000 km² de deserto
A descoberta aconteceu numa vasta região árida entre o rio Nilo e o Mar Vermelho — uma área tão inóspita e de difícil acesso que, durante décadas, pesquisadores simplesmente não conseguiam explorá-la por meio de expedições terrestres tradicionais. A solução veio do espaço: analisando imagens de satélite de alta resolução, a equipe conseguiu identificar formas geométricas que se destacavam da paisagem natural — 260 estruturas circulares e ovais, feitas de pedra, muitas delas parcialmente encobertas pela areia.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Macquarie (Austrália), da unidade francesa HiSoMA e da Academia Polonesa de Ciências, foi publicado na revista científica African Archaeological Review. Segundo Julien Cooper, pesquisador principal da Macquarie University, a descoberta transforma a compreensão que se tinha sobre os desertos do Saara e a pré-história da região do Nilo.
Quem eram essas pessoas?
As estruturas identificadas são, na maioria, túmulos coletivos monumentais, datados principalmente dos milênios IV e III a.C. — ou seja, entre 5 e 6 mil anos atrás. Dentro delas, os arqueólogos encontraram esqueletos humanos frequentemente acompanhados por ossos de gado, ovelhas e cabras, dispostos ao redor de um indivíduo considerado "principal", no centro do monumento.
Esse padrão de organização indica algo importante: não eram sepultamentos aleatórios, e sim locais de descanso deliberados e cuidadosamente planejados. Isso sugere que os povos nômades que habitavam essa região do nordeste da África, muito antes da consolidação do Egito Antigo, já possuíam uma estrutura social organizada e complexa — capaz de erguer monumentos funerários coletivos mesmo levando uma vida de deslocamento constante em busca de água e pasto em um dos ambientes mais secos do planeta.
Por que essa descoberta pode reescrever a história da região
Segundo os pesquisadores, esses monumentos funcionam quase como um "prólogo" para o monumentalismo que, séculos depois, marcaria os reinos do Egito e da Núbia — civilizações conhecidas justamente por suas construções grandiosas, como as pirâmides. Encontrar evidência de práticas funerárias tão organizadas entre povos nômades, muito antes disso, muda a forma como os cientistas entendem a origem dessa tradição monumental na África.
Uma corrida contra o tempo
Apesar de terem resistido intactos por mais de 5 mil anos — sobrevivendo a mudanças climáticas extremas e ao avanço do próprio deserto —, muitos desses monumentos correm risco real de desaparecer nos próximos anos. Os pesquisadores identificaram danos graves causados por mineração ilegal de ouro e atos de vandalismo em áreas como Wadi Gabgaba, onde alguns monumentos foram destruídos em questão de dias. Segundo a equipe, ao menos uma dúzia de sítios já sofreu danos irreversíveis antes mesmo de serem totalmente documentados pela ciência.
É justamente esse tipo de ameaça que reforça a importância do sensoriamento remoto por satélite: ele permite localizar e registrar sítios arqueológicos frágeis antes que sejam destruídos — algo que seria impossível apenas com expedições terrestres, dado o ritmo da destruição.
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